Bruno Helman: Expedição Islândia

image5Olá, muito prazer! Meu nome é Bruno Helman, tenho 21 anos e há 03 DM1.

Fui diagnosticado aos 18 anos, literalmente da noite pro dia. Foi um grande choque, não conseguia acreditar como um jovem saudável e atlético como eu, poderia ter DIABETES! Algumas semanas depois, quando a poeira abaixou, eu percebi que tinha duas escolhas dali pra frente: deixar a diabetes me derrubar ou derrubar a diabetes. Como vou contar nas próximas linhas eu escolhi a segunda opção.

Prometi a mim mesmo que iria viver mais e melhor. Comecei a correr com o meu pai – completamos nossa primeira maratona em maio a Maratona do Rio- , adotei uma alimentação balanceada – evito ingestão de farinha branca, açúcar, opto sempre que possível por orgânicos e integrais – e acompanhamento médico periódico a fim de de garantir um controle glicêmico perfeito – atualmente minha HcGB1 está em 5,8.

A diabetes sempre foi algo meu. Não que eu tivesse problema de falar sobre, pelo contrário, sempre tive orgulho de falar para quem quisesse ouvir e quem não quisesse também, como nos diabéticos éramos sortudos de termos recebido o presente de “fazermos escolhas mais saudáveis e responsáveis”. Só que como eu fui diagnosticado tardiamente nunca tive com quem compartilhar as dores e as alegrias de ser “doce”, nunca frequentei associação de pacientes e acampamentos educativos e até mesmo conhecia pouquíssimos DM1s.

Tudo mudou com a minha participação no Type 1 Diabetes Challenge, um projeto idealizado pela triatleta, nutricionista, mãe e defensora dos direitos dos diabéticos, Delphine Arduine. Anualmente jovens e adultos com DM1 são selecionados a participarem de um desafio com intuito de divulgarem a causa e promoverem que a diabetes não é nenhum impeditivo, pelo contrário é um BAITA combustível. Na sua quarta edição, 12 jovens e adultos com DM1, 5 profissional de saúde do Sweet Center(centro mundial de referência no tratamento da diabetes juvenil, que conta com a sua sede sul-americana em Curitiba sob a direção do Dr. Mauro Scharf), 2 cameramen e 2 guias, totalizando um total de 15 nacionalidades diferentes, foram patrocinados pela Sanoffi a escalar o Hekla Trek, na exótica Islândia.

Foram mais de 100 quilômetros percorridos em 4,5 dias, com uma altimetria de 10.000 metros. Achei que seria fácil, uma vez que eu tinha récem fechado uma maratona, mal eu sabia o que a montanha me esperava. Devia ter ouvido os conselhos do meu amigo e exemplo Alexei Angelo, “nunca subestime uma montanha”. Foram longas caminhadas, em média 8 horas por dia, em um terreno totalmente instável, cheio de declives, solo arenoso, rios com temperaturas que beiravam 0oC e um vento que cortava até a alma.

Confesso que não foi fácil, eu estava com uma lesão no joelho proveniente da maratona, então sentia muita dor e consequentemente mancava bastante. No fim do primeiro dia estava tão de vagar que os médicos e guias perguntaram por diversas vezes se eu não queria que o carro de apoio. Minha resposta: ” se uma doença crônica não me impediu de atingir meus objetivos, não vai ser uma dor estúpida no joelho. ” Mais que do que completar o Trek, o que obviamente nos causou uma sensação de dever cumprido , o auge da aventura foi sentir e experienciar uma sensação genuína de suporte, companheiros e torcida dos meus companheiros. Num dos dias eu estava mancando bastante, e nos últimos metros tínhamos uma subida de uns 800 m de elevação, quando estava quase parando por cansaço e dor, ouvi meus companheiros gritando meu nome. Cara isso, mexe com você, te dá um estímulo sobrenatural. Estar perto de pessoas tão diversas, mas com algo em comum tão forte foi algo lindo de se ver. Todos estavam lá não por nós mesmos, mas sim pelos milhões de diabéticos que são afetados mundialmente, por aqueles que se sentem discriminados, por aqueles que não têm acesso à informação, por aqueles que se sentem incompreendidos, acreditem vocês não estão sozinhos. Pode fazer o destro, conversar sobre assuntos tão banais para nós, pessoas com diabetes, como tipos de insulina, terapia convencional ou bomba de infusão, adivinhar quantas gramas de carboidrato cada alimento tem me fez me sentir “em casa” mesmo milhares de quilômetros longe dela.

Cada esforço, cada metro, cada perrengue, valeram muito a pena. Ser colocado sob condição extrema, na qual deus limites são exigidos requer muito preparo físico, evidentemente. Mas o grande segredo é o emocional. O nosso coração e nosso cérebro são capazes de coisas incríveis, quando colocados para trabalhar juntos os resultados são ainda melhores. O que eu quero dizer com isso, é que todos nós temos problemas, cada um de nós enfrenta dificuldades diárias.

A diabetes pode ser um problema, é verdade. Mas pode ser uma solução, pode ser o caminho para uma nova vida. Por isso meus companheiros insulinodepentes os convido para apreciarem esse presente que a diabetes nos dá que é a oportunidade de vivermos uma vida mais feliz e saudável.

E lembrem-se juntos somos mais fortes.

Bruno Helman

Obs: o termo diabético é conceitualmente incorreto, pois uma pessoa não é uma doença, mas sim tem uma doença. Todavia como a diabetes é parte de quem eu sou, não só, mas também, eu adoto o termo como parte do meu ativismo por aceitação e compreensão da Diabetes.

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