Dia Mundial do Diabetes: o exemplo de Kener Assis


K3Há 15 anos, num exame periódico no trabalho, o triatleta Kener Assis descobriu que sofria de diabetes. Na época, embora um pouco afastado dos treinos, pedalava, corria e vivia uma fase intensa no trabalho, problemas pessoais e às voltas com a conclusão do curso superior em Gestão de Negócios. Combinação perfeita para alto índice de estresse.

“Saía muito cedo de casa e retornava por volta de meia noite, pois tinha que conciliar atividade profissional com a universidade. Tinha todos os sintomas e não me dei conta. Visão turva, fome e sede absurdas, perda de peso, urinava muitas vezes à noite, cansaço físico. Em pouco tempo saí de uma condição favorável de saúde para o diagnóstico de diabetes”, diz o atleta, hoje com 48 anos.

 No início, Kener chegou a se entregar às dificuldades que o diabetes impõe, negligenciando o tratamento e abusando da alimentação. Hoje, às vésperas do Dia Mundial do Diabetes – 14 de novembro – pode ser visto como um bom exemplo para quem ainda luta para ter uma vida normal mesmo sendo portador da doença. Kener abraçou a causa e usou o esporte para isso. No fim de novembro será um dos palestrantes no 3º Encontro Diabetes & Desportes, que reúne pessoas com duas coisas em comum: o diabetes e a prática esportiva. Entre suas façanhas estão cinco provas de ironman, algumas maratonas, ultramaratonas e dois desafios São Paulo-Rio, quando pedalou entre as duas cidades praticamente sem parar.

 Kener falou um pouco sobre sua vida de atleta e a missão de levar informações e um pouco de motivação a quem acaba de descobrir que é portador do diabetes.

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O aro da bicicleta do Kener na cor azul combinou muito bem com o símbolo do Dia Mundial do Diabetes!

O que planeja fazer para celebrar o Dia Mundial do Diabetes?

Opa! Gostei da palavra ‘celebrar’, pois é isso que sempre faço. Celebrarei o Dia Mundial do Diabetes promovendo a saúde e motivando que a sociedade faça o mesmo. Parte desse cuidado se dá compartilhando informação. Ainda nas comemorações, participarei do 3º Encontro Diabetes & Desportes que acontecerá em São Paulo, nos dias 29 e 30 de novembro, com ciclo de palestras no sábado e, é claro, uma corrida no domingo.

 Você já praticava esportes quando descobriu que tinha diabetes?

Desde garoto sempre gostei de atividades esportivas. No período do diagnóstico estava afastado do ciclismo e das corridas. Só conseguia fazer alguma coisa nos finais de semana: o básico. Refletindo, depois, percebi como aos poucos fui saindo do rumo seguro para uma direção que acionou o “gatilho” e trouxe o diagnóstico.

 O que mudou desde então? 

No meu caso diria que a mudança veio em fases. A primeira com o diagnóstico, onde um turbilhão de coisas me passou pela cabeça. Foram muitas informações em pouco tempo e a total falta de conhecimento do tema. Depois veio a negação, em que relutei em admitir e negligenciei o tratamento e a alimentação. Cheguei ao ponto de várias vezes abusar da alimentação e logo depois provocar vômito para ‘aliviar a culpa’ (risos). Como consequência foram diversas idas às emergências, pois são fases com tempo incerto, duram meses ou até anos! A grande virada foi uma passagem pela emergência hospitalar por conta de uma hiperglicemia. Após um ‘papo cabeça’ com um casal de médicos veio a aceitação. A partir disso entendi que a mudança era só minha e dependia única e exclusivamente de mim. Essa mudança é como uma porta onde só há fechadura por dentro. Somente quem está do lado de dentro (eu), pode abrir a porta da mudança. Assim o fiz. Passei a me questionar: como fazer para retomar o esporte sem ter problemas? Como conciliar tratamento e atividades esportivas?  Busquei me informar e em 2004 descobri um time maravilhoso, o Diabetes & Desportes (diabetesedesportes.com.br). Idealizado por dois amigos com diabetes, Marcelo Bellon (Curitiba) e Alexei Caio (São Paulo), temos como objetivo a troca de experiências sobre atividade física e o diabetes, tema escasso à época. Com isso veio a superação. Diria que a troca de idéias funcionou como ‘grupo de ajuda’ e a partir disso a mudança foi radical. Para melhor, claro!

De que forma o esporte o ajuda a conviver com o diabetes?

O bom controle do diabetes está condicionado ao que chamo de ‘tripé’. Uma base que uma vez bem estruturada te leva ao infinito e é composta de: orientação médica (endocrinologista), que fará a análise dos resultados dos exames e orientará sobre as medições glicêmicas e aplicações de insulinas; orientação sobre atividade física e esportiva (educador físico), que sabendo de sua condição prescreverá as atividades e o acompanhará durante a execução; orientação nutricional (nutricionista), que irá compor uma dieta alimentar e suplementar de acordo com sua condição e objetivos. Um detalhe: o apoio familiar é fundamental!

Portanto, o esporte é uma das ferramentas para um bom controle do diabetes além de nos dar a condição de conhecermos melhor o funcionamento de nosso corpo em diversas situações, o que é um diferencial e se torna vantajoso.

As pessoas se surpreendem quando sabem que você tem diabetes, mas pratica esporte com assiduidade?

Sim, e isso é um reflexo cultural. Quando se fala em diabetes a primeira ideia que se tem são ‘os problemas’. A fotografia é sempre de pessoas de idade mais elevada e que já apresentam complicações por mau controle, como cegueira, comprometimento de membros, amputações, hemodiálise, etc. Mas há o lado extremamente positivo, e esse precisa ser amplamente difundido. Por isso, nosso time Diabetes & Desportes sempre procura mostrar que com o diabetes se pode, e se deve, levar uma vida com qualidade, basta buscar o equilíbrio e um bom controle.

Acha que falta informação e conhecimento?

Sim, e como! Inclusive dos profissionais do ‘tripé’ citado anteriormente. E todos têm responsabilidade sobre isso. Certa vez uma médica me sugeriu parar com as atividades esportivas de endurance, pois estava ‘agredindo’ meu corpo (!). Essa foi a resposta mais curta e de menor esforço que pude ter. Ao invés de se prontificar a estudar e desenvolver condições para que eu estivesse de forma segura em um Ironman, simplesmente me sugeriu fazer caminhadas três vezes por semana. Ou seja, poucos irão em busca de  informações ou irão querer aprender sobre uma nova condição ou tecnologia e te ajudar a conquistar seus objetivos. Cada esporte, com sua duração, tem suas características e cada pessoa com diabetes reage de maneira distinta a um mesmo estímulo. Seja em um treino de ciclismo de 100K, seja consumindo um sachê de carboidrato em gel ou aplicando determinado número de unidades de insulina ultrarrápida. Tudo será diferente. Em se tratando de diabetes não há ‘receita de bolo’ ou ‘CD de instalação’. Portanto, informação de qualidade te dá vida. Por outro lado, a falta dela certamente te levará a complicações. Escolhi a primeira opção.

O que faço hoje, de forma segura, causa espanto à maioria por pura falta de informação. Não quero dizer que quem tem diabetes tem que fazer o que eu faço, não é isso! O que me refiro, e deve ser estimulado, é buscar condições de realizar seus sonhos de forma orientada e segura, independente de quais sejam. Busque informação! Troque ideias! Interaja! Faça intercâmbio! Questione! Pergunte! Saia da zona de conforto! Invista em você!

Atualmente você tem praticado que modalidades esportivas?

Me identifico com o triathlon de longa distância e suas disciplinas. Talvez pelo fato de o bom controle do diabetes ser algo que demande tempo, dedicação, disciplina, aprendizado e muito autoconhecimento, me vi apaixonado pelas longas distâncias. Por conta disso evoluí com o tempo e já estive em Ironman (5x), meias maratonas e maratonas (diversas), Ultramaratonas em revezamento (várias), travessias em águas abertas, provas de ultraciclismo (Audax e Rio – São Paulo/ São Paulo – Rio “non stop”), entre outras atividades. Outra ‘modalidade’ que amo praticar são as palestras motivacionais, onde posso trocar experiências como retribuição a tudo que tenho conquistado.

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Fonte: Página no FaceBook da Barcellos Ipanema.

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