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Portal SBD: A Prática do mergulho por pessoas com diabetes

SBD mergulhoAté o ano de 2005, o diabetes era considerado uma contra-indicação absoluta para a prática do mergulho esportivo. Num workshop conjunto, conduzido pela Divers Alert Network e a Undersea and Hyperbaric Medical Society, criaram-se diretrizes para permitir que diabéticos sem complicações tardias da doença pudessem mergulhar, no âmbito recreativo, não comercial.

Enquanto diabéticos são aconselhados muitas vezes a mudarem seus hábitos de vida, com mais prática de exercícios, alimentação adequada, medicações e eventualmente cirurgia bariátrica, o mergulho tem certas particularidades, entre elas a incapacidade de se intervir imediatamente num episódio de hipoglicemia, que faz com que cuidados adicionais sejam necessários.

Sempre que nos exercitamos, precisamos de uma reserva energética, e devido a sua condição, o diabético pode não utilizá-la ou esgota-la rapidamente tendo, enfim, um controle mais difícil. Enquanto numa academia, mesmo tendo monitorado seu nível de glicose sanguínea antes do exercício, e assumindo que esteja dentro dos parâmetros aceitáveis para se exercitar, a hipoglicemia pode ocorrer. Neste caso, a interrupção imediata, seguida da ingestão de carbo-hidrato de absorção rápida, e eventualmente a utilização de glucagon injetável, poderá facilmente reverter a situação.

Debaixo da água, ou mesmo na superfície, os sintomas de hipoglicemia podem ser confundidos com os de hipotermia, e o manejo da situação se torna bem mais complicado. Então, o grande segredo é começar seus mergulhos com níveis adequados de glicemia, e ficar dentro do escopo de mergulhos que não tenham uma demanda energética exagerada.

Aí vem um outro problema, nem sempre as condições de mergulho se mantém, por exemplo com o surgimento de uma corrente muito forte, aumentando bastante o esforço do mergulhador, ou uma queda brusca da temperatura da água, causando um dispêndio energético maior para manter a temperatura corporal. Por melhor planejado que seja o mergulho, intercorrências podem acontecer. Imagine que seu companheiro de mergulho passe a ter cãibras na superfície, e você terá que rebocá-lo para o barco. Ou que você se perdeu do mesmo, e apesar de ter seguido o procedimento correto, que é voltar `a superfície para encontrá-lo, entra em estresse, o que pode também derrubar seu açúcar no sangue??

Não quero soar negativo, e nem desestimular a atividade por diabéticos, mas é importante entender a importância da monitoração da glicose sanguínea antes e depois dos mergulhos, e de considerar reservas e até mecanismos para ingestão rápida de açúcar mesmo na água.

Precisamos considerar também que muitas vezes mergulhos são feitos em áreas remotas, sem suporte avançado de emergências num curto prazo, e o planejamento de contingências precisa ser feito considerando esta distância, tempo e outras variáveis. Imagine-se numa viagem de mergulho em embarcação do tipo liveaboard, onde você vai para uma área onde não existe civilização, por uma semana?? Tem que levar todo seu aporte de medicações, e sua glicose (ou glucagon) de emergência, além do equipamento de teste de glicemia, com uma boa quantidade de tiras. Questione-se se este tipo de viagem é para você??

Vão aqui algumas dicas para que você possa desfrutar desta maravilhosa atividade, sem risco importante devido a sua condição:

Antes de pensar em mergulhar, tenha um programa regular de exercícios orientados, especialmente se o diabetes é uma condição mais recente para você. Com isto, conhecerá melhor seu corpo, e como sua glicemia reage aos esforços.

Após a aprovação pelo seu médico, independente do tipo de diabetes que você tenha, siga à risca as diretrizes para diabéticos mergulhadores. E faça um registro de todas as suas medidas de glicose antes e depois dos mais diversos mergulhos.

Mesmo na água quente, use roupa de proteção térmica e de mecânica. O diabético pode ter menos sensibilidade ao frio, mas isto não quer dizer que tem mais resistência a hipotermia. E pode ter dificuldade de cicatrização, então a proteção das mãos e pés, especialmente nas áreas de possível atrito das nadadeiras, é fundamental.

Não se sinta pressionado para fazer um mergulho, onde as condições se tornaram desfavoráveis, ou se você não está se sentindo bem. Sempre irá existir uma nova oportunidade. E na dúvida, faça uma nova checagem da sua glicemia

Lembre-se que o diabetes pode mudar suas características com o tempo, inclusive para melhor. Por exemplo, um diabético que era obeso e perde bastante peso terá que ajustar sua medicação, sobre o risco de hipoglicemias. Procure seu médico sempre que uma condição se alterar, antes de pensar em mergulhar.

As demandas do mergulho comercial e científico não permitem que diabéticos possam participar, com boa margem de segurança, destas atividades

Por fim, gostaria de aconselhar pré-diabéticos que façam uso de medicação a procurar orientação médica, para mergulhar, pois a hipoglicemia não é um evento tão raro neste tipo de paciente

Autor:
Sérgio Viegas – Delegado no Brasil da Divers Alert network (DAN – Brasil)
Com a colaboração de: Gabriel Ganme – médico e treinador de instrutores de mergulho.

Fonte: Portal SBD.

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