A experiência da FDU (Federação de Diabetes do Uruguai) na expedição ao Andes

Andes7Leiam o emocionante relado da experiência de Abayuba Rodrigues que liderou uma expedição aos Andes para prestarem homenagem aos tripulantes do avião uruguaio que caiu lá há aproximadamente 40 anos.

Como qualquer história de experiências e aventuras, há sempre uma história que antecede a própria ação dos fatos, e esta história aqui precisa localizar você no início de tudo.

Era outubro de 2009 ( 1 ª foto da reunião), quando eu estava frente a frente a um grupo de crianças com diabetes T1 e seus pais, relatei as primeiras experiências do projeto “Bandera Al Cielo”. Tais pais que estavam atentos e preocupados com o cuidado e deficiências do sistema de saúde para com os seus filhos, viam as ultramaratonas e escaladas de montanhas como histórias fascinantes e únicas. Após a reunião animei aquele grupo de pais para juntos organizar uma associação que iria reunir e coordenar as necessidades de seus filhos, todos insulinodependentes.

Assim, a idéia era criar uma fundação que, entre outros requisitos administrativos, deveria depositar US$ 10.000 como garantia de funcionamento.

Em março de 2010 aquele já organizado grupo de pais e a Fundação Pro Diabetes me acompanharam em um Triathlon Ironman. Posto de onde para cada Km percorrido, empresas contribuiriam com dinheiro para a causa (criação da Fundação). As crianças estariam com a referência de um atleta com diabetes em ação e até mesmo se organizaram para acompanhar a maratona em trechos de 2-5 km dependendo de seu estado e condição. Assim, consegiu-se US$ 2.000 que foram importantes na organização de uma corrida de 5K para o DMD (Dia Mundial do Diabetes, 14 de Novembro) do mesmo ano.  Então este movimento pelo diabetes já dura cinco anos de crescimento ininterrupto.

Em paralelo, a já consolidada Fundação Diabetes do Uruguai, conta com mais de 500 famílias, sede própria, oficinas de educação mensais, dois acampamentos anuais para crianças com diabetes e até mesmo um grupo de treinamento 3 vezes por semana para distâncias de 10 a 21 km de corrida  e, recentemente, alguns triatletas .

Por toda esta breve, mas intensa “história”, há seis meses comunciou-se que em Março um evento especial aconteceria para se alcançar o Vale das Lágrimas, onde estão os destroços do Fairchilt 571 e os restos mortais dos 29 compatriotas que lá morreram, para honrá-los e os 16 sobreviventes (tivemos contato com alguns) também. Estabeleceu-se uma lista de candidatos com os seguintes requisitos estabelecidos: ter uma hemoglobina glicosilada na faixa de 7 % ou menos (para garantir o controle metabólico e manejo do diabetes), ostentar condição física comprovável, determinando a participação na San Antonio Dobre como teste de triagem, e uma carta de intenções que explique as razões para a participação e como devolveria  para a comunidade a experiência e os conhecimentos adquiridos .

Assim, o grupo ficou formado por Pablo Cajaraville (30), professor de educação física com 15 anos de diabetes; Pablo Pirotto (24), engenheiro e proprietário de academia de ginástica com 10 anos de diabetes; Sebastina Gauna (34), consultora com 8 anos de diabetes; Alejandro Duera (14), 7 anos com diabeets e eu, Abayuba Rodriguez (45),  professor de educação física com 27 anos com diabetes, acompanhados pelos cameramans profissionais Alejandro Martorele e Dyego Cortinas, além da Presidente da Fundação, Giselle Mosegui (48); os guias Leandro “Alemão” Scheule e David “Ioda” Berolovski .

A primeira logística era conseguir equipamentos, especialmente para as pessoas que nunca tiveram a mais de 300 metros de altitude. Assim iríamaos para o novo, o inesperado, mas, fundamentalmente, muito motivador.

Reunião do Grupo em Montevidéu (alguns são do interior), ônibus para Colônia (2,5 horas) e viagem de barco até Buenos Aires (1,5 horas). Em seguida, de ônibus para San Rafael – Mendoza 1200kms (13 horas), depois outro para Malargue (2 horas), que por atraso da empresa se perdeu e teve que dar o próximo. E no meio da estrada nos esperarva um microônibus de 12 passageiros que nos aprofundaria no caminho ao Sosneado (2 horas).

Ao pé da Sosneado, a montanha de 5000 metros mais austral da cordilheira, cruzamos o Athuel superior, com 1,5 km de comprimento; mais 1 h de caminhada e ficamos junto ao delta do Rio das Lágrimas, vertente do glaciar do mesmo nome e em cujo caminho se encontra a fuselagem do avião a 3700 metros acima do nível do mar.

Noite por ali e pela manhã tentando recuperar o tempo perdido, através de uma colina em zigue-zague e falésias que margeiam o Rio das Lágrimas que atravessam várias montanhas, incluindo as montanhas mais íngremes inteiramente em pedra que parecia gesso, até chegar ao Rio Rosado (onde deveria ter sido o primeiro acampamento, apesar da distância percorrida naquele dia de 7km); almoço ao lado do Rio Rosado e movimentação de 4 horas a mais para o acampamento na beira do Barroso (3ª travessia de rio). A técnica é a de trocar calçados, apoiar os bastões e ir devagar, mas com segurança. Tiraram-se as mochilas, pois se cair na água, com o peso dela e a , força da água, poderia levar a uma situação de perigo.

Após este longo dia se chega ao acampamento Barroso, onde Daniel (responsável pelo lugar) está esperando por nós com água quente e uma tenda de jantar bem preparada, com o mesmo serviço que o da empresa Las Lenas S.A., que opera no outro lado da cordilheira com um centro de Ski de primeiro nível. Ali fizemos o acampamento base até nosso regresso.

Tudo é preparado em um quadro de expectativa e histórias de expedições especialmente recentes e contada pelos sobreviventes (que eles mesmo nos disseram) e histórias de livros e anotações feitas depois de 40 anos dos eventos terem acontecido.

Deve estar tudo pronto para a partida que será no dia seguinte às 4 da manhã, com as 3 primeiras horas no escuro. Sob as estrelas e a iluminação real dos faróis fez com que o nosso grupo ficasse como uma linha fechada de 10 luzes que serpenteiam ao longo de um caminho nas sombras de picos andinos deslumbrantes.

Percorridos quase 3 horas para a primeira luz começar a aparecer e podermos ver a grandeza do Andes. O grupo compacto funciona como uma máquina perfeita, onde aproximadamente a cada hora se realizavam glicemia, hidratação, ajustar mochilas e equipamentos para a caminhada.

Com o sol brilhando a primeira coisa que se vê é o mesmo Vale das Lágrimas e à direita a colina superior onde o avião se chocou. A estrada segue serpenteando, o que faz com que ela aparecesse e desaparecesse o tempo todo dando a impressão que estávamos perto, mas ao longo das horas é visto como não tão perto assim.

Às 09:00 chegamos ao pé do Rio das Lágrimas,l com sua cor transparente e o fluxo não parece ameaçador. Lá deixamos o almoço para poder seguir mais leves e do outro lado do rio os equipamentos que utilizamos apenas para atravessa-lo. É ali, a 3100 metros, que o declive é acentuado e contínuo, ascendendo algumas morenas (resíduos que o glaciar deixa quando retrocede). Mais uma parada e nossa última fonte de água até regressarmos. Isso para um dia quente (ao sol) quando o vento está de frente. A travessia continua entre se abrigar e despir-se, literalmente.

Em um ritmo constante, talvez motivado pela visão que vem e vai, em um dos últimos colina parece que o Vale está perdido e nunca mais o vê até que o guia adverte -nos de pé em cima de uma colina, que do outro lado se verá todo o vale e também oo monólito que marca o Santuário e convida a todos para tentar “encontrar” seu próprio ritmo para o mesmo.

Honestamente não há muitas opções para onde ir, passando esta última colina se ver um reflexo que nos cega, que é o resto de uma asa do avião. É um espelho gigante que tudo o que vemos e começa a enxurrada de fotos. Ela está a pelo menos um quilômetro. O grupo desacelera e em silêncio quase cerimonial segue.

O lugar tem uma energia especial que não é nem positivo nem negativo. Se fica em silêncio assistindo como se algo fosse saltar diante de você, é o choro inconsolável e quem as lágrimas vêm sem uma razão específica para muitos e talvez para todos.

Os guias já acostumados com o local guardam absoluto silêncio enquanto o grupo em duplas e trios se abraçam, lembrando as fotos dos nossos compatriotas no momento do resgate .

O lugar tem uma cruz de ferro sobre as placas de bronze com os nomes das pessoas que estão lá no descanso eterno. Existem outras placas e mensagens dos mais diversos grupos e países. Muitas de membros da família que já estiveram ali várias vezes. A seguir estão outras cruzes menores, com bandeiras e símbolos de homenagens, mensagens e dedicatórias, destacando o espírito de sobrevivência e superação.

Ao lado os restos da aeronave, sendo alguns inalterados pelo tempo. Peças, tanques,  filtro de ar da turbina, porta de emergência e seções da fuselagem. É a pequena montanha de detritos que não reflete a redução do todo, quando o sonho do Ícaro moderno se resume apenas alguma sucata retorcida que é difícil acreditar que é parte de uma aeronave completa. Em linha com este está o monólito Homenagem que tem uma lenda alegórica de um lado, com os nomes e as idades dos 29 mortos e em outro  os nomes dos 16 sobreviventes.

Sem dúvida, a montanha, com a mudança climática em 40 anos, retrocedeu dando mais espaço ao nascimento do Rio das Lágrimas, descendo pelo menos 25 metros de como era há 40 anos.

A cerca de 800 metros à frente e onde o glaciar e as montanhas são o mesmo elemento, não pude deixar de ir. A 30 metros de um caminho rochoso, está o trem de pouso, imponente, um braço de metal de 2,5 m de comprimento, com material de fundição de quase 5 cm de largura quebrado pelo impacto que parecia ter ocorido no dia anterior. As duas rodas parecem estar pronto para ser infladas e toda a peça não deve pesar menos de meia tonelada. O grande degelo faz muitas peças de fuselagem escondido décadas a geleira ficarem à vista, Não posso resistir a tentação e desço ao glaciar. Este está transparente e deixa lacunas onde se a profundidade e o som de água corrente. É um perigo que, se quebras cai na mesma geleira. Até onde os olhos podem ver vê-se ferro enferrujado, pedaços de fuselagem e brilhantes peças de roupa. Eu não posso parar de me mover e eu escuto o apito e gritos dos guias para me retirar do lugar. É muito estranho, porque o perigo é pior, mas a adrenalina me empurra para ver, olhar e querer ficar junto em uma cúpula transparente e escuro de gelo oco. Ali devia ser mais ou menos onde havia dito Daniel (nosso anfitrião no campo base) foram encontradas roupas, ossos e restos humanos. Vejo algo entre as rochas, que parece um radio ou ulna. Voltei e na pequena subida tento analisar o acidente onde o avião bateu e deslizou para baixo da geleira , onde as asas e a cauda foi destacado no impacto

O regresso ao local do Santuário é mais cadenciado e animado. Todo grupo agora está já sem tirar fotos e deixamos a placa de homenagem da FDU. As únicas palavras que vêm a mim são mais do que para o grupo, mas para todos aqueles que são afetados pela doença do pâncreas, exclamando algo como “amigos, aqui descansam 29 companheiros que o destino não lhes deu uma nova chance, aos 16 que sobreviveram para ir para casa, a vida lhes deu uma segunda chance; para nós nada vai mudar quando voltarmos, a diabetes vai continuar sendo nossa companheira e apenas para nós a oportunidade de continuar vivendo a vida como queremos, fazendo o tratamento e sabendo que apenas nós somos responsáveis ​​por um futuro sem complicações !”.

O retorno não foi menor, mas o entusiasmo era. A expectativa era outra e às 3 da tarde chegamos ao Rio das Lágrimas, que estava com muito fluxo, agora verde, fluindo e desafiador porque o sol derrete a geleira e esta aumenta o volume de água; uma vez do outro lado tivemos o almoço e quase 4 horas a mais para o acampamento base.

Noite de reflexão e emoção, histórias próprias e comuns. Na manhã seguinte às 06:00 desarmar o acampamento e na escuridão começar a viagem de regresso. Ir a margem do Barroso no escuro e a estrada parece interminável até o delta do Rio das Lágrimas e Athuel superiores.

Depois dele o veículo nos espera, podendo se ver o brilho do pára-brisa. Foi quase uma hora de caminhada entre a água e a lama. A reflexão que assombra a nós é como os sobreviventes como nós desistiram em vez de cruzar os Andes. Fazê-lo em 2 dias estariam a salvos pois este lugar é habitado até então e foi um posto militar .

Mas o fim é sempre o que teria acontecido? Um metro acima e a aeronave passaria, mais 1 metro abaixo todos morreriam. É sempre mais fácil dizer o que é feito com todas as possibilidades conhecidas. Mas, como toda a gente nunca sabe o que vai acontecer amanhã, talvez um dia difícil, talvez um dos melhores dias em um tempo ou talvez seja apenas mais um dia; mas fazer sentido para aquele dia comum torna-se única e incomparável.

 Até que a próxima vez!

Abayuba - Andes

 

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